terça-feira, 4 de dezembro de 2007

África do Sul: a miscigenação racial imposta às empresas

No início dos anos 1990, quando caiu o apartheid na África do Sul, 10% da população detinham 90% das riquezas do país. Desde então o poder político não pára de promover a transformação da economia, redistribuindo o capital e os empregos. Mesmo que nada na legislação seja realmente restritivo, ninguém pode escapar do Broad Based Black Economic Empowerment (BBBEE, mapa para o progresso econômico dos negros), a nova regra do jogo dos negócios na África do Sul.

Nenhuma lei obriga as empresas a se conformar, a não ser a do mercado, que cria um fenômeno de contágio. Segundo o governo, entre 1995 e 2005 mais de 1.300 contratos foram fechados e 285 bilhões de rands (27 bilhões de euros) mudaram de mãos brancas para negras.

No início só as empresas que assinavam contratos com o Estado precisavam cumprir certo número de critérios, sendo o primeiro que uma parte de seu capital fosse detida por acionistas negros - incluindo indianos e mestiços. Elas também deviam provar sua capacidade de oferecer oportunidades de emprego e de carreira a essa categoria de empregados. Outra cláusula provocou o efeito dominó: essas empresas são obrigadas a demonstrar que, ao terceirizar, favorecem as empresas negras. Portanto, mesmo que uma empresa não trabalhe diretamente com o Estado ela é indiretamente levada a se colocar em conformidade.

Desde fevereiro foi publicado um novo "scorecard", um boletim de avaliação das empresas em termos de promoção dos negros. Ele serve agora como documento básico. A nota global obtida permite classificar a empresa, do nível 8 ao 1, segundo seu grau de envolvimento no processo de transformação. "Está na hora de parar de fingir. Quando um cliente lhe pede seu boletim, você não pode responder eternamente que está trabalhando para melhorar", afirma Keith Levenstein, consultor especializado em BBBEE. Toda semana ele organiza seminários para ajudar as empresas a preencher esse documento.

Na sala, meia dúzia de executivos da Business Connection, nº 2 sul-africana de informática; o chefe de uma média empresa, fornecedora de queijo para os maiores hotéis do país; duas mulheres que chefiam uma pequena empresa de programas de informática e um sacerdote metodista. Cada um deles precisa se formar, compreender como funciona esse BBBEE. "Muitos patrões pensam que se trata de transferência de capital, mas está longe disso. Existem outras formas de ganhar pontos", explica o consultor.

No final dos anos 1990, no início do Black Economic Empowerment (BEE), tratava-se apenas de fazer entrar sócios negros no capital das empresas. O sistema foi extremamente criticado por enriquecer rápida e substancialmente um pequeno grupo de homens e mulheres de negócios próximos ao poder. Em quase todas as transações encontravam-se então os mesmos "big fat cats" [gatos gordos].

Essa era parece encerrada. Hoje há no novo boletim uma cláusula que concede pontos suplementares se o sócio BEE efetua sua primeira entrada no capital de uma empresa. Uma espécie de prêmio para os recém-chegados. A idéia do Broad Based BEE (BEE ampliado) é não se contentar com novos "capitalistas" negros e fazer o maior número de pessoas beneficiar-se dele. Se a transferência de capital pode dar cerca de 20 pontos, o emprego de executivos negros, sobretudo quando se trata de mulheres, e uma boa política de formação contínua podem dar mais de 30 pontos. Outra grande vantagem: as terceirizações. Quanto mais uma empresa dá trabalho a socieddes negras, mais pontos ela ganha. E recebe um bônus se essas firmas forem dirigidas por mulheres.
Ajudar uma jovem empresa negra a se desenvolver acarreta pontos. A Business Connection conseguiu o nível 4. Essa empresa cotada na Bolsa enviou executivos vindos de diversos serviços para participar do seminário organizado por Levenstein. O objetivo: descobrir como passar do nível 4 para o 3, pois, como explica um dos responsáveis, "hoje é um dos critérios de diferenciação da concorrência". Para Robert Foltan, o problema é outro. Ele ainda não tem boletim e somente cerca de 20 empregados. São dois acionistas que não têm interesse nem vontade de incluir um novo sócio: "Os grandes hotéis pedem meu boletim e eu me faço de surdo. Sei que eles mesmos não têm, mas não poderei fazer esse jogo eternamente".
Sheila, por sua vez, tem uma abordagem mais militante. Negra e co-diretora de uma editora de programas de computador, ela estima que adequar-se é "um dever moral, uma questão ética".
Mais surpreendente é a presença de John Roux, o sacerdote metodista: "Eu trabalho nos bairros pobres. Ajudo jovens a criar suas próprias empresas. Se uma grande empresa os apóia, ela marca pontos no boletim. Preciso compreender como, se eu quiser usar esse argumento para encontrar novos parceiros".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: Le Monde

Livro discute igualdade das relações étnico-raciais na escola

A Ação Educativa, o CEERT/Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, o Ceafro, o Mieib - Movimento Interfórum de Educação Infantil do Brasil, o Núcleo de Relações Étnico-Raciais e de Gênero da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, a Editora Peirópolis, o Instituto C&A e a Save the Children UK convidam para o lançamento do livro: Igualdade das Relações Étnico-raciais na Escola
A publicação aborda os resultados da Consulta Étnico-racial, pesquisa realizada em São Paulo, Salvador e Belo Horizonte junto a quinze escolas de educação infantil e ensino fundamental das redes municipais de ensino sobre a implementação da lei nº 10.639/2003. A Lei estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em toda a educação básica. Participaram da pesquisa professores, coordenadores pedagógicos, diretores, funcionários e os pais, mães ou responsáveis pelos alunos.
Data: 7 de dezembro
Local: Auditório da Ação Educativa. General Jardim, 660 - Vila Buarque - Tel. 3151-2333 - São Paulo - SP
Programação:
-14h30 Apresentação e debate sobre os resultados da Consulta Igualdade Étnico-Racial na Escola, realizada nos municípios de São Paulo, Belo Horizonte e Salvador.
-17h30 Coquetel de lançamento do livro e apresentação cultural

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Maláui: colocando um fim à fome, simplesmente ignorando os especialistas

Celia W. Dugger Em Lilongwe, Maláui

Maláui pairou por anos à beira da fome. Após uma desastrosa safra de milho em 2005, quase 5 milhões de seus 13 milhões de habitantes precisaram de ajuda alimentar de emergência.

Mas neste ano, um país que perenemente estendeu o prato de esmola ao mundo está alimentando seus vizinhos famintos. Ele está vendendo mais milho para o Programa Alimentar Mundial da ONU do que qualquer outro país no sul da África e está exportando centenas de milhares de toneladas de milho para o Zimbábue.

No próprio Maláui, a prevalência de crianças com fome aguda caiu acentuadamente. Em outubro, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) transferiu três toneladas de leite em pó, estocados aqui para tratamento de crianças gravemente desnutridas, para Uganda. "Nós não o usaremos!", disse Juan Ortiz-Iruri, o vice-representante do Unicef para Maláui, com júbilo.
Os agricultores explicam a extraordinária recuperação de Maláui - uma com amplas implicações para os métodos de combate à fome na África - com uma palavra: fertilizante.

Ao longo dos últimos 20 anos, o Banco Mundial e alguns países ricos, dos quais Maláui dependia para ajuda, periodicamente pressionavam este pequeno país sem acesso ao mar a aderir às políticas de livre mercado e reduzir ou eliminar os subsídios aos fertilizantes, apesar dos Estados Unidos e Europa subsidiarem enormemente seus próprios agricultores. Mas após a safra de 2005, a pior em uma década, Bingu wa Mutharika, o presidente recém-eleito de Maláui, decidiu seguir o que o Ocidente praticava e não o que ele pregava.

Incomodado com a humilhação de implorar por caridade, ele liderou a readoção e aprofundamento dos subsídios aos fertilizantes, apesar do ceticismo dos Estados Unidos e do Reino Unido. O solo de Maláui, como de grande parte da África sub-Saara, é gravemente esgotado, e muitos, se não a maioria, de seus agricultores são pobres demais para adquirir fertilizantes a preços de mercado.

"Enquanto eu for presidente, eu não quero ir a outras capitais para implorar por comida", declarou Mutharika. Patrick Kabambe, o alto funcionário no Ministério da Agricultura, disse que o presidente informou a seus assessores: "Nosso povo é pobre por carecer de recursos para usar o solo e a água que temos".
O uso bem-sucedido de subsídios pelo país está contribuindo para uma reavaliação mais ampla do papel crucial da agricultura no alívio à pobreza na África, assim como da importância dos investimentos públicos nos elementos básicos de uma economia agrícola: fertilizante, sementes melhoradas, educação ao agricultor, crédito e pesquisa agrícola.

Maláui, uma nação predominantemente rural com cerca do tamanho do Estado da Pensilvânia, é um exemplo extremo do que acontece quando faltam estas coisas. Com o crescimento de sua população e diminuição da posse de terras herdadas, agricultores empobrecidos plantaram cada centímetro do solo. Desesperados em alimentar suas famílias, eles não podiam arcar com o custo de deixar a terra inaproveitada ou com a despesa de fertilizá-la. Com o tempo, seus terrenos esgotados passaram a produzir menos alimentos e os agricultores mergulharam ainda mais na pobreza.

Os líderes de Maláui há muito defendiam subsídios para os fertilizantes, mas aceitavam relutantemente as prescrições dos doadores, frequëntemente moldadas segundo as modas de ajuda externa de Washington, que exibiam fé na liberdade de mercado e antipatia por intervenções do governo.
Nos anos 80 e novamente nos 90, o Banco Mundial pressionou Maláui a eliminar totalmente os subsídios aos fertilizantes. Sua teoria em ambas as ocasiões era de que os agricultores de Maláui deveriam optar pelo plantio de produtos rentáveis para exportação e usar os ganhos para importar alimentos, segundo Jane Harrigan, uma economista da Universidade de Londres.

Em uma avaliação deprimente do desempenho do Banco Mundial na agricultura africana, sua própria auditoria interna concluiu em outubro que não apenas a remoção dos subsídios levou a fertilizantes com preços exorbitantes nos países africanos, mas também que o próprio banco fracassou em reconhecer que a melhoria das condições do solo da África era essencial para melhorar a produção de alimentos.

"Os doadores removeram o papel do governo e os desastres começaram a se somar", disse Jeffrey Sachs, um economista da Universidade de Columbia que fez lobby junto ao Reino Unido e ao Banco Mundial em prol do programa de fertilizantes de Maláui e que defendeu a idéia de que os países ricos devem investir em fertilizantes e sementes para os agricultores africanos.
Aqui em Maláui, os profundos subsídios aos fertilizantes e menores para sementes, somados a boas chuvas, ajudaram os agricultores a obterem safras recordes de milho em 2006 e 2007, segundo estimativas do governo. A produção de milho saltou de 1,2 bilhão de toneladas em 2005 para 2,7 bilhões de toneladas em 2006 e 3,4 bilhões em 2007, informou o governo.

"O resto do mundo é alimentado por causa do uso de boas sementes e fertilizante inorgânico, ponto", disse Stephen Carr, que vive em Maláui desde 1989, quando se aposentou como principal especialista em agricultura do Banco Mundial na África sub-Saara. "Esta tecnologia não era usada em grande parte da África. A única forma de ajudar os agricultores a terem acesso a ela é lhes dando gratuitamente ou por meio de pesados subsídios."

"O governo pegou o touro pelo chifre e fez o que os agricultores queriam", ele disse. Alguns economistas questionaram se a safra recorde de Maláui em 2007 ocorreu devido às boas chuvas ou aos subsídios, mas uma avaliação independente, financiada pela ONU e pelo Reino Unido, apontou que o programa de subsídio foi responsável por grande parte do aumento da produção de milho neste ano.

A safra também ajudou os pobres ao baixar o preço dos alimentos e aumentando os salários dos trabalhadores rurais. Pesquisadores do Imperial College London e da Universidade Estadual de Michigan concluíram em seu relatório preliminar que um programa de subsídios bem conduzido, em uma economia administrada de forma sensível, "tem o potencial de promover o crescimento para fora da faixa de pobreza em que muitos malauianos e a economia malauiana atualmente se encontram".

Os agricultores entrevistados recentemente nas regiões sul e central de Maláui disseram que o fertilizante melhorou enormemente a capacidade deles de encherem a barriga com nsima, o espesso mingau de milho que é a base da alimentação no país.

Na aldeia de Mthungu, Enelesi Chakhaza, uma viúva idosa cujo marido morreu de fome há cinco anos, se gabou de contar com dois carros de boi cheios de milho neste ano, colhidos de sua pequena propriedade, em vez de meio carro.
No ano passado, cerca da metade das famílias de agricultores do país recebeu cupons que lhes davam direito a comprar dois sacos de 50 quilos de fertilizante, o suficiente para quase meio hectare de terra, por cerca de US$ 15 -cerca de um terço do preço de mercado. O governo também lhes deu cupons para sementes suficientes para plantar menos de meio hectare.

Os malauianos ainda são assombrados pela temporada de fome de 2001-2002. Naquele período, um programa já reduzido para dar aos agricultores pobres fertilizante e sementes suficientes para plantar parcos 1.000 metros quadrados de terra foi reduzido ainda mais. Enchentes regionais reduziram ainda mais a safra. Os preços do milho dispararam. E sob o governo no poder na época, toda a reserva de grãos do país foi vendida em conseqüência de má administração e corrupção.

Chakhaza assistiu seu marido morrer de fome naquele período. Ele foi se enfraquecendo enquanto tentavam subsistir com folhas de abóbora. Ele foi um dos muitos que sucumbiram naquele ano, disse K.B. Kakunga, o representante local do Ministério da Agricultura. Ele lembra de mães e crianças implorando por comida à sua porta.

"Eu tinha um pouco de algo, mas não podia ajudar cada uma daquelas pessoas", ele disse. "Foi muito patético, realmente muito patético."
Mas Kakunga se animou ao falar sobre o impacto dos subsídios, que ele disse terem mais que dobrado a produção de milho em sua jurisdição desde 2005.
"É maravilhoso!"

A determinação de Maláui em subsidiar o fertilizante e o resultado de maior produção estão começando a mudar a posição dos doadores, disseram economistas que estudaram a experiência de Maláui.

O Departamento para o Desenvolvimento Internacional britânico contribuiu com US$ 8 milhões para o programa de subsídio no ano passado. Bernabe Sanchez, um economista da agência em Maláui, estimou que o milho adicional produzido devido ao subsídio de US$ 74 milhões valia entre US$ 120 milhões e US$ 140 milhões.

"Foi realmente um bom investimento econômico", ele disse.
Os Estados Unidos, que enviaram US$ 147 milhões em alimentos americanos para Maláui como ajuda de emergência desde 2002, mas apenas US$ 53 milhões para ajudar Maláui a cultivar seu próprio alimento, não forneceram qualquer apoio financeiro ao programa de subsídio, exceto para ajudar a pagar a avaliação dele. Ao longo dos anos, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) se concentrou em promover o papel do setor privado no fornecimento de fertilizante e semente, e achava que os subsídios minavam tal esforço.

Mas Alan Eastham, o embaixador americano em Maláui, disse em uma recente entrevista que o programa de subsídio funcionou "muito bem", apesar de ter afetado as vendas de fertilizantes comerciais.
"A verdade é que Maláui teve sorte no ano passado", ele disse. "Eles conseguiram o fertilizante enquanto era necessário. A parte da sorte foi que tiveram as chuvas."

E o Banco Mundial agora às vezes apóia o uso temporário de subsídios voltados para os pobres e executados de forma a promover os mercados privados.
Aqui em Maláui, representantes do banco que disseram que geralmente apóiam a política de Maláui, apesar de terem criticado o governo por não ter uma estratégia para eventualmente acabar com os subsídios, questionam se as estimativas de produção de milho de 2007 foram infladas e dizem que ainda há bastante espaço para melhorar a forma como o subsídio é executado.
"A questão é, vamos fazer um trabalho melhor com isto", disse David Rohrbach, um alto economista agrícola do banco.

Apesar da ambivalência dos doadores, os agricultores de Maláui abraçaram os subsídios. E o governo buscou neste ano dar ao seu povo um envolvimento mais direto na distribuição deles.

A aldeia de Chembe se reuniu em uma manhã recente sob os amplos galhos de uma árvore para decidir quem mais precisava de cupons de fertilizante à medida que a estação de plantio se aproximava. Eles só tinham o suficiente para 19 das 53 famílias da aldeia. "Senhoras e senhores, devemos começar com os idosos ou com os órfãos?" perguntou, Samuel Dama, um representante do clã Chembe.
Os homens lideravam a assembléia, mas mulheres sentadas no chão aos pés deles chamavam quase todos os nomes dos mais necessitados, gesticulando para as famílias que criavam crianças que ficaram órfãs devido à Aids ou que cuidavam de idosos desdentados.

Havia mais famílias pobres do que cupons, então as reclamações começaram entre aqueles que sabiam que teriam que esperar pelo próximo ano enquanto os campos de milho fertilizados de seus vizinhos se tornavam verdes.
Sentindo o crescente ressentimento, o chefe da aldeia, Zaudeni Mapila, se levantou. Descalço e vestindo jeans empoeirados e uma jaqueta azul, ele encenou uma pantomima ridícula de maridos enchendo suas calças com milho para vender às escondidas para obter dinheiro para se embebedarem no bar. As mulheres caíram na gargalhada. A tensão passou.

Ele encerrou com um lembrete que espera que diminuirá qualquer ciúme. "Eu não quero que ninguém se queixe", ele disse. "Não sou eu quem escolhe. São vocês." As mulheres cantaram para ele em um coro de reconhecimento, depois voltaram para seus lares e campos.


Fonte: The New York Times

O perfil sócio-racial da relenta – uma leitura de conceitos

Minha infância no bairro Bateias (hoje Brasil), em Vitória da Conquista, foi marcada por acontecimentos q’inda hoje me povoam a alma de dores e espantos, alegrias e contemplações. Inda hoje predominam em minha mente lembranças de um vocabulário tipicamente bateiense e que eu jamais encontrei em qualquer outro lugar. Um vocabulário rico, demasiado rico.
Havia termos que, confesso, nunca entendi, pois que muito cedo deixei as Bateias para outro trecho da cidade. Mas um vocábulo, em especial, veio-me à mente hoje, quando indagava a mim mesmo sobre as maneiras por meio das quais a sociedade estabelece diferenças e determina fronteiras sociais para-além dos aspectos meramente econômicos. Paulinho da Viola tem um belo samba chamado Chico Brito, que eu ouvia quando fustiguei minha imaginação.

Detive-me nessas investigações filosóficas quando, enfim, atentei para o fato de que havia um termo, em especial, que, na minha infância, era utilizado para identificar um tipo especial de sujeito (a): relento. Relento (a) era todo aquele e toda aquela que, socialmente controvertido, assumia um comportamento que não era exatamente o modelo ordeiro que os pais tanto solicitam de seus filhos. Quem recorrer ao Aurélio saberá que relento é um termo que diz respeito às más condições atmosféricas.

Vitória da Conquista é uma cidade nordestina, porém, fria; seus habitantes costumam chamar de relentas as noites de neblina. Diz-se, muito comumente: “Menino, sai do relento”. Numa sociedade machista como a nossa, é evidente que o termo tem maior força quando aplicado à mulher, uma vez que ao homem o termo relento quase sinônimo. Sair à noite, sem compromisso, aprontando, é, em nossa sociedade, uma ação naturalmente masculina e aceita. À mulher, o recato.

Daí por que o termo ganhava força quando indicava uma figura feminina. Lembro bem de meus pais intervindo junto às minhas irmãs, fazendo uso do termo relenta quase que para amedrontá-las. “Não quero ver vocês mais com aquelas relentas”; “Saiam de perto daquelas relentas”. Colar sua imagem à de uma relenta era carimbar o passaporte para o naufrágio social.

Mas algo hoje me chamou atenção: relenta era um termo aplicado quase que exclusivamente às meninas negras; para mim, criança – e hoje esta verdade parece evidente –, relenta e negra eram sinônimos. Jane, filha de uma vizinha nossa – Dona Anésia – era uma menina como outra qualquer; criança cujos pés pisavam a areia e que possuía as qualidades todas próprias de alguém pertencente a uma determinada classe social. Jane era uma criança negra e, portanto, o seu comportamento era de uma relenta, condição que atingia não apenas sua dignidade mas a de sua família como um todo. Tais práticas verbais tem poderes elásticos. O mesmo comportamento, a mesma ação, o mesmo acinzentado da pele, quando percebidos em meninas de classe média – que cosia engraçada – não mereciam tais interpretações.

Embora não pretenda utilizar neste espaço de linguajar academicista para explicar o que penso, devo dizer que vou me policiar para identificar aquelas práticas verbas que mais diretamente nos atinge para estabelecer uma leitura mais atenta dessas ações sociais que, de tão naturais, vão criando um ambiente de discriminações e de discursos preconceituosos.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Escritor angolano lança obra no Brasil

De passagem por Brasília para lançar o livro Os da minha rua, jovem escritor africano afirma que a capital de seu país, Luanda, passa por um “terremoto cultural” e conta que angola, em fase de reconstrução, vive agora o choro da cicatrização
Ondjaki, pseudônimo de Ndalu de Almeida, nasceu em Luanda, Angola, há quase 30 anos. Publicou seu primeiro livro, Actu Sanguíneu, com poemas, em 2000. É um artista multimídia. Desenha, fotografa, dirigiu peças de teatro e, recentemente, realizou um documentário, Oxalá cresçam pitangas, sobre Luanda. Defensor entusiasmado de um maior contato entre as culturas de língua portuguesa, Ondjaki acredita que cada país deva manter suas particularidades lingüísticas.
Ele esteve em Brasília, na terça-feira, para lançar sua mais recente obra Os da minha rua, publicada pela Língua Geral. Ondjaki conversou com o Correio e contou sua experiência de crescer num país em conflito, avaliou o impacto da paz na vida dos angolanos e analisou os problemas de reconstrução do país, vitimado por mais de 40 anos de guerra, contra os colonizadores portugueses e os guerrilheiros do FNLA e da Unita. Para ele, Angola vive um terremoto cultural, centralizado em Luanda, a capital, que concentra quase um terço da população do país.
Finalista do Prêmio Portugal Telecom e fanático por basquete, como a maioria dos seus compatriotas (a seleção angolana é a mais forte da África), Ondjaki já se adaptou ao Brasil e até torce para um time de futebol carioca, o Fluminense, uma imposição de sua namorada carioca. A seguir, alguns trechos da entrevista.
CRESCER NUM PAÍS EM GUERRA
“Eu sou daqueles que têm a felicidade de crescer longe da guerra. Sempre digo isso com toda franqueza. Cresci em Luanda, que teve combates apenas durante quatro dias, em 1992. Eu nasci em 1977 e não assisti aos combates de 1975, entre o FNLA, a Unita e o MPLA. A guerra que todo cidadão luandense sofreu é uma guerra colateral: falta d’água, de luz e imensas dificuldades, como aparecimento dos musseques, diretamente relacionados com o êxodo causado pela guerra.
Mas agora há uma coisa interessante: a visão pura, limpa das crianças. Nós não tínhamos tanta consciência disso. Nós ouvíamos as notícias de que o país estava em guerra, a Unita, MPLA, dos sul-africanos, mas nós éramos simples crianças. Para qualquer criança, um fato é um fato normal. Como até esses quatro dias de guerra, na altura eu tinha 14 anos, mas era uma criança, era uma coisa natural. Não foi visto como um dramalhão.
DESCOBERTA E O MEDO DA PAZ
Em quase todos os povos africanos que eu conheço, há uma naturalidade de se lidar com aquilo que aparentemente é dramático. Há uma aceitação muita sábia das coisas dramáticas como parte do destino. Talvez porque esses países sempre estiveram envolvidos em guerras. A guerra não era novidade para nós. A novidade era a paz. Eu vi pessoas assustadas com a paz. Que perguntavam: ‘E agora, como é que vai ser?’ Porque a gente tinha que aprender a viver com a paz. Hoje, em todos os angolanos, há um sorriso coletivo, de espanto, quase de magia, um sorriso infantil, causado por essa coisa de você poder pegar seu carro e ir a qualquer lugar, porque as estradas estão desminadas. Você pode pegar seu carro e andar mil quilômetros, quando antes você fazia apenas 40, 50 quilômetros já com algum risco. Mesmo na estrada Luanda-Benguela, que era relativamente segura, antes de sair você ouvia: ‘A Unita está aqui, a Unita está ali’.
Então há essa redescoberta da circulação.
No outro nível há uma redescoberta familiar, o que não é o meu caso, mas há famílias que ficaram 20 anos sem tomarem contato. Há toda uma estréia emocional neste entorno da paz, que eu penso que é um momento muito bonito. Eu fiz um pequeno documentário sobre Luanda chamado Oxalá cresçam pitangas, que é uma pequena tentativa, sem muitos apoios, mas quem me dera que todas essas emoções relativas à paz estivessem a serem gravadas, pois estamos a ver o renascimento do país. É como se todo o país pudesse chorar, mas é um choro de alívio, é um choro de celebração. Um choro de cicatrização.”
RESSENTIMENTOS E CONCILIAÇÃO
Há ressentimentos naturais. Esses ressentimentos devem estar ligados a quem perdeu um pai na guerra, a quem pisou numa mina, a quem teve uma prima torturada. Há uma camada da população que pode ter dores muito mais violentas, sob o ponto de vista psicológico, do que outras. Mas, no senso comum, há um sentimento de conciliação, há um sentimento de celebração, que deixa pouco espaço para ressentimentos, que, de resto, não é uma coisa típica dos africanos. Angola, felizmente, não é um país que explora o ressentimento.
O BOOM NA CULTURA E NOS ESPORTES
“Há uma crescente produção. Começou um pouco antes do acordo de paz de Luena, em 1995, 996. Agora, o que houve depois da assinatura do acordo, assinado em 2002, foi uma maior distribuição de dinheiros. O dinheiro deixou de estar todo canalizado para a guerra e foi aparecendo em outras áreas. Houve três grandes explosões: a da literatura, o da música e a do desporto. A expansão da música passa por duas vias, uma institucional, há mais apoio, portanto grava-se mais, mas há um boom, que é um fenômeno universal. Com o domínio facilitado das novas tecnologias, a periferia, que são os musseques (favelas), está tudo a gravar. Quem divulga essa música? Não é a rádio, são os próprios candongueiros, os táxis coletivos, que aqui chamam van, um meio de propagação terrível. Depois penetra na rádio. Porque já que está todo mundo a ouvir nos candongueiros, aí a rádio vai e busca. São os chamados meios informais de circulação da informação, antes de chegar ao jornal e a rádio. Em relação ao desporto, além da afirmação do basquete (esporte nacional de Angola), um grande investimento no futebol, conseguiu-se, de uma maneira esforçada, por ativismo desportivo, chegar ao mundial, e a partir daí a afirmação de uma seleção que nunca chegara a lugar algum, e agora, com a paz, é possível fazerem-se esses campeonatos em nível nacional. Antes, só se jogava em províncias onde não havia guerra. A literatura acorda, mas enquanto na música e no desporto há um benefício direto se você fizer um investimento financeiro, a literatura depende de fatores subjetivos, como o talento.”
LITERATURA AFRICANA NO BRASIL
Os nomes que estão a chegar aqui, angolanos e moçambicanos, são nomes de alta qualidade. Não é qualquer coisa. Ou por mérito dos intermediários, ou por mérito dos editores brasileiros. Os autores têm boa crítica. Não estou a falar de mim. Estou a falar do Luandino, estou a falar do Rui Eduardo Carvalho, Pepetela, Agualusa e de Mia Couto, um dos nomes maiores da literatura universal. Ainda faltam chegar nomes como Henrique Abranches, João Maiomona, José Luiz Mendonça. A literatura angolana está presa à Luanda, que tem nesse momento, 6 milhões de habitantes. Configura quase um terço da população do país. Quase todos os produtores culturais estão em Luanda. Mesmo um Jacques Arlindo dos Santos, nascido no interior, está a 40 anos em Luanda. Ou ele escreve sobre Luanda, ou vai escrever um livro de memórias. Luanda é um terremoto cultural, e não estou a falar de festas e funerais, que são dois eventos muito interessantes na cidade. Em cada canto de Luanda há gente a contar histórias interessantes, vendedores de rua, condutores de táxi, empregadas, funcionários bancários, têm uma história a contar ou recontar. Luanda é uma cidade teatral. Ninguém fica imune a essa teatralidade em uma cidade onde têm milhares de pessoas a dizer: ‘Contem minha história’. O luandense é um cidadão extremamente apaixonado por sua cidade, apesar de ela estar suja e destruída. O que é uma forma de amor extremamente profunda, porque é mais fácil amar algo limpo do que algo que está sujo e destruído.”
CRESCIMENTO ECONÔMICO
“O crescimento econômico realmente é visível, mas não é proporcional à distribuição da riqueza. Não estou com isso a querer dizer que é um fenômeno exclusivo nosso. Nós sabemos que a má distribuição da riqueza é um problema mundial. Eu gostaria que a gente pudesse distribuir um pouco mais essa explosão de riqueza. Eu digo sinceramente que muita coisa está a ser feita em termos de benefícios sociais. Tenho andado de carro por Angola e visto muitos hospitais novos, muitas escolas novas, muitos postos de saúde novos. Portanto, há sim um certo investimento, mas penso que esse investimento tinha que ser mais forte, mais cuidadoso e mais eficaz. Detectar quais são as áreas que tem prioridade.
É óbvio que há um boom na construção civil, mas como ficam os problemas de nutrição e de certas epidemias que aparecem de repente? Tivemos Ébola, tivemos Marburg? Em termos de Aids, não estamos tão mal como nossos vizinhos, o Congo e a África do Sul, mas parece que nossos números, mesmo assim, são assustadores, mas eu não tenho esses dados. Eu penso que num país de recursos consideráveis, como nós temos, não é concebível que ainda falte luz, inclusive em Luanda, e água. O que é ridículo, pois nós somos um dos países com maiores recursos hídricos por quilômetro quadrado. Há províncias banhadas por sete, oito rios. Os caboverdianos, que só se abastecem com água de chuva, ficam fascinados com isso. Quando vêem uma pequena fonte natural ficam a olhar, olhar, olhar. Uma vez vi um caboverdiano hipnotizado por uma pequena queda d’água, que nem sequer era uma queda d’água, era um chuveiro. E a gente a buzinar no carro, e ele fascinado com um fio d’água. E ele disse: ‘Sabe o que eu estava a olhar? É que aquele fio d’água nunca pára’. O que lhe fascinava não era a quantidade. Era o fato daquela água ser imparável.”
REFORMA ORTOGRÁFICA
“Um dia ainda vou ser que nem Manoel de Barros que só faz entrevista por e-mail. É mais seguro, porque não deturpam. Aqui no Brasil já deturparam bastante. Não percebem (entendem) bem e deturpam. A ponto de eu falar uma coisa e aparecer outra. Ou então não entendem e começam a abrasileirar o discurso. Ora, eu não falo brasileiro, falo português de Angola, não gosto de ver as minhas citações abrasileiradas porque não falei assim. Tiram os artigos, põem gerúndios. Sou completamente a favor da particularidade cultural dos povos. O que não tem nada a ver com todos os outros laços que nos unem, que são muito bonitos. Mas também é bonito que cada um fale como fala. Não vamos todos falar igual. Nem todos falar como os portugueses, que não acho feio, nem todos falar como os brasileiros, só porque são mais. Que também não acho feio. Por isso não concordo quando o Agualusa argumenta: ‘Ah, mas os brasileiros são 180 milhões’. Podiam ser 500 milhões. Em Cabo Verde são 400 mil e falam como eles quiserem. Essa conversa tem passado tanto lá nos encontros que tivemos agora, do Acordo Ortográfico. Quem concorda, quem não concorda. E eu sempre argumento: Não posso concordar ou não concordar com uma coisa que eu não conheço. Nunca ninguém me explicou.
FONTE: Correio Braziliense

02 de dezembro - Dia Nacional do Samba


Samba, agoniza mas não morre

Nelson Sargento

Samba,
Agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro
Samba
Negro, forte, destemido
Foi duramente perseguidoNa esquina, no botequim, no terreiro
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalquia do salão
Te abraçou, te envolveu
Mudaram
Toda a sua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você nem percebeu

sábado, 1 de dezembro de 2007

"Ser Negro no Brasil Hoje"

Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro
Milton Santos

Há uma freqüente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.
500 anos de culpa
Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se aproxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?

Hipocrisia permanente

No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é? Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.

Marcas visíveis

Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social. Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa. A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade. Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro -imagem fácil- e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.

Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega. Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida". Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.

A revolução de Milton Santos

"Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo liberado partícipe das novas massas e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não o discurso único. Os pobres não se entregam e descobrem a cada dia formas inéditas de trabalho e de luta; a semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em atitudes de inconformidade e, talvez, rebeldia."

Milton Santos em Por Uma Outra Globalização - Do Pensamento Único à Consciência Universal

Cruz e Sousa, poeta negro brasileiro

João da Cruz e Sousa faleceu a 19 de Março de 1898, aos 36 anos, e a história da sua vida é uma das mais trágicas da literatura brasileira. Filho de um casal de escravos, "recebeu o nome do santo do dia, João da Cruz, e o sobrenome do senhor do seu pai", o Marechal-de-Campo Guilherme Xavier de Sousa. "(...) Negro puro, (...) deixava três filhos e uma viúva grávida. Esses três filhos, um por um, sucumbirão à mesma tuberculose. A eles seguir-se-á a mãe. Apenas o filho póstumo, com o mesmo nome do pai, escapará da hecatombe familiar, para, por sua vez, morrer da mesma doença aos dezessete anos, em 1915.
Deixava grávida, no entanto, a menor Francelina Maria da Conceição, que, após gerar o neto do poeta, (...) morreria atropelada por um bonde". Considerado o maior poeta do Simbolismo brasileiro, Cruz e Sousa foi protegido e educado pela esposa do Marechal-de-Campo e depressa revelou grandes aptidões intelectuais, de onde uma extrema desadequação ao seu meio de origem e o embate violento com o preconceito racial.
A vida atribulada desta grande personalidade das letras brasileira é também pretexto para uma criteriosa amostragem de um dos seus melhores e mais belos poemas:


Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Quilombolas e ONGs pedem intervenção da ONU no caso Marambaia


A Campanha Marambaia Livre, liderada por 18 organizações e movimentos sociais, encaminhou denúncia às Nações Unidas sobre as graves violações de direitos humanos que vêm ocorrendo contra os quilombolas da Ilha da Marambaia, em Itacuruçá (RJ). Desde a década de 1970, quando a Marinha do Brasil assumiu a administração da Ilha, os remanescentes de quilombos estão impedidos de construir, reparar ou ampliar suas casas e ainda realizar pescas, tudo isso em nome da segurança nacional.
O informe relata as sistemáticas violações ao direito à titulação da terra, à moradia adequada e ameaça de despejos forçados aos moradores remanescentes de quilombolas da Ilha. O documento foi encaminhado ao Representante do Alto Secretariado de Direitos Humanos de Deslocamentos Internos, Walter Kälin, e ao Relator Especial sobre Formas Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Relacionadas de Intolerância, Doudou Diene.
A denúncia está sendo enviada às Nações Unidas dois meses depois de o Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro (TRJ) acatar o pedido de suspensão de segurança solicitado pela União.O recurso jurídico – criado em 1964 em plena ditadura militar e ao qual somente o governo tem acesso – foi acatado pelo TRJ suspendendo os efeitos da interpretação do juiz da Vara Federal de Angra dos Reis, Raffaele Felice Pirro, favorável à conclusão dos procedimentos – no prazo de um ano – para a titulação das terras dos quilombolas da Ilha da Marambaia.
O informe faz um breve histórico sobre a presença dos remanescentes de quilombos na Ilha, cujas comunidades foram organizadas entre os anos 1532 e 1888, período em que Joaquim Breves, conhecido traficante de escravos, trazia os escravizados para a região com o objetivo de recuperá-los fisicamente, antes de serem vendidos.
Desde então, os quilombolas ocupavam a Ilha pacificamente, até a chegada da Marinha, em 1971. Os militares restringiram visitas de familiares e vetaram as atividades de agricultura e pesca. No entanto, enquanto proibia a comunidade de realizar suas atividades, a Marinha do Brasil construía estradas, depósitos de lixo, pista de pouso e manobra. Tais atividades vêm afetando sistematicamente os sítios arqueológicos da região, cemitério, incluindo a área residencial.
Batalha jurídica
A batalha judicial começou em 1997, quando os militares passaram a recorrer a ações judiciais contra os moradores, qualificando-os de invasores. Até 1999, muitas famílias foram expulsas e suas casas demolidas.
Em 2002, o Ministério Público Federal contestou as ações da Marinha entrando com uma Ação Civil Pública contra a União e a Fundação Cultural Palmares. No mesmo ano, a Fundação Palmares assinou contrato com a organização civil e ecumênica Koinonia para elaborar relatório técnico de identificação e demarcação dos limites dos territórios quilombolas. Em 2003, a comunidade organizou-se na Associação de Remanescentes de Quilombos da Ilha da Marambaia (ARQIMAR). Em 2004, a Fundação Palmares expediu a Certidão de Reconhecimento para a comunidade quilombola.
Há pouco mais de um ano, uma comissão federal apresentou uma proposta de delimitação da área que reduzia drasticamente as terras pertencentes à comunidade e não atendia as necessidades básicas dos moradores. A proposta não foi aceita. Recentemente, a Marinha intimou sete moradores a depor (entre eles, o casal Renata Mariano e Lázaro Santana), porque, amparados por uma decisão judicial, construíram casas ou retornaram à Ilha. Uma clara tentativa de criminalização dessas ações. Hoje a Ilha da Marambaia integra 14 praias e abriga 600 pessoas distribuídas em 90 casas.
Além da ONU, a denúncia também está sendo encaminhada para diversas autoridades brasileiras, entre elas a Casa Civil, Secretaria Especial de Direitos Humanos, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e o Incra.
FONTE: Observatório Quilombola