segunda-feira, 12 de maio de 2008

Kabengele Munanga: A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil


PARA O ANTROPÓLOGO Kabengele Munanga, professor-titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, não é fácil definir quem é negro no Brasil. Em entrevista concedida a ESTUDOS AVANÇADOS, no último dia 13 de fevereiro, ele classifica a questão como “problemática”, sobretudo quando se discutem políticas de ação afirmativa, como cotas para negros em universidades públicas.“Com os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostrando que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode se dizer um afro-descendente. Trata-se de uma decisão política”, afirma.

Kabengele Munanga é atualmente vice-diretor do Centro de Estudos Africanos e do Museu de Arte Contemporânea da USP. Nasceu em 19 de novembro de 1942 no antigo Zaire, onde recebeu sua educação primária e secundária. Sua educação superior ocorreu em seu país natal, de 1964 a 1969. Foi o primeiro antropólogo formado na então Université Officielle du Congo, em Ciências Sociais (Antropologia Social e Cultural). No mesmo ano em que se graduou, recebeu uma bolsa do governo belga, como pesquisador no Museu Real da África Central, em Tervuren e como aluno do programa de pós-graduação na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Essa bolsa foi interrompida em 1971, por questões políticas, antes da conclusão de seu doutorado.

Em julho de 1975, veio ao Brasil com uma bolsa da USP, a fim de continuar seus estudos. Defendeu sua tese em 1977. No mesmo ano, voltou a seu país, mas não conseguiu permanecer lá por muito tempo. Regressou ao Brasil em 1979, para trabalhar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em 1980, iniciou a segunda fase de sua carreira na USP. Em 2002, o governo brasileiro concedeu a Kabengele Munanga o diploma de sua admissão na Ordem do Mérito Cultural, na classe de Comendador.

Participaram da entrevista com Kabengele Munanga, o editor de ESTUDOS AVANÇADOS, professor Alfredo Bosi, e o editor assistente, jornalista Dario Luis Borelli.

ESTUDOS AVANÇADOS – Quem é negro no Brasil? É um problema de identidadeou de denominação?

Kabengele Munanga – Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer pessoa que tenha essa aparência. É uma qualificação política que se aproxima da definição norte-americana. Nos EUA não existe pardo, mulato ou mestiço e qualquer descendente de negro pode simplesmente se apresentar como negro. Portanto, por mais que tenha uma aparênciade branco, a pessoa pode se declarar como negro. No contexto atual, no Brasil a questão é problemática, porque, quando se colocam em foco políticas de ações afirmativas – cotas, por exemplo –, o conceito de negro torna-se complexo. Entra em jogo também o conceito de afro-descendente, forjado pelos próprios negros na busca da unidade com os mestiços. Com os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostrando que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode se dizer um afro-descendente. Trata-se de uma decisão política. Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar. O único jeito é submeter essa pessoa a um teste de DNA. Porém, isso não é aconselhável, porque, segui
ndo por tal caminho, todos os brasileiros deverão fazer testes. E o mesmo sucederia com afro-descendentes que têm marcadores genéticos europeus, porque muitos de nossos mestiços são euro-descendentes.

ESTUDOS AVANÇADOS – Em face da concessão de cotas para negros, ou para outros segmentos da população que não tiveram a mesma condição de cursar escolas da classe média ou alta, qual a sua posição?

Kabengele Munanga – Por ocasião dos trezentos anos da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995, começamos a discutir essa questão na USP, numa comissão criada pela reitoria. Os movimentos negros, principalmente o Núcleo da Consciência Negra, pleitearam o estabelecimento de cotas em nossa universidade. Contudo, afirmei que não poderíamos discutir o sistema de cotas sem antes fazer uma pesquisa preliminar em países que já têm experiência de cotas, como os EUA, o Canadá, a Austrália ou a Índia. Naquela ocasião, apresentei essa proposta, mas ela não foi levada adiante. No entanto, na base de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um órgão do governo federal, conclui-se que realmente há uma grande defasagem na escolaridade dos negros nas universidades brasileiras. Infelizmente, porém, começamos a enfrentar a questão pelas cotas, a partir da decisão do governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, que provocou uma confusão muito grande, quando estabeleceu cotas nas universidades estaduais. No entanto, mesmo num país com tantas desigualdades, as políticas universalistas não resolvem o problema do negro. Para isso precisamos formular políticas específicas contra as desigualdades, mas o caminho não deve ser necessariamente por meio de cotas. Essa discussão, todavia, é importante, porque antes nem se tocava no assunto. Escutei outro dia algo muito positivo quando alguém dizia que deveria haver cotas para pobres. Ora, antes ninguém apresentou esse ponto de vista. O que mais me surpreende é que jamais o movimento negro se disse contrário a cotas para brancos pobres. A questão ainda está mal discutida, sendo formulada num tom passional, tanto pelos negros como pelos intelectuais. A questão não é a existência ou não das cotas. O fundamental é aumentar o contingente negro no ensino superior deboa qualidade, descobrindo os caminhos para que isso aconteça. Para mim, as cotas são uma medida transitória, para acelerar o processo. No entanto, julgo que não somente os negros, mas também os brancos pobres têm o direito às cotas. Se as cotas forem adotadas, devem ser cruzados critérios econômicos com critérios étnicos. Porque meus filhos não precisam de cotas, assim como outros negros da classe média.

ESTUDOS AVANÇADOS – O sr. iniciou suas declarações dando uma opinião contra as cotas, mas agora aponta para o problema da urgência. As cotas aparecem como uma medida de urgência?

Kabengele Munanga – Sim. Ao menos que o país diga que tem hoje uma outra proposta emergencial melhor, que não abra mão de uma política universalista com vistas ao aperfeiçoamento do nível do ensino básico. É bom lembrar que a escola pública já apresentou melhor qualidade, mas o negro e o pobre não entravam nela.Melhorar a escola pública

ESTUDOS AVANÇADOS – O sr. acha que a médio prazo a alternativa seria uma transformação mais profunda do ensino básico e secundário? Um número considerável de alunos negros faz o segundo grau em escolas públicas. Não falo deles como negros, mas sim como pobres. Será que as cotas não resolvem o problema porque o enfrentam no fim da linha, em vez de atacá-lo no começo?

Kabengele Munanga – Sim. Porém, vivo aqui há 28 anos e desde que cheguei escuto esse discurso. Mas nunca vi luta política e social alguma para a melhoria da escola pública. Só há o discurso. Mas o que fazer com a vítima? Esperar que isso aconteça por milagre, ou pressionar a sociedade através de uma proposta: como pelo menos cuidar da escola pública? A dúvida que tenho é a seguinte: num país onde a privatização do ensino é cada vez maior e no qual o lobby das escolas particulares é tão forte, só posso antever uma melhoria a longo prazo. Lembro-me de que o primeiro processo contra as propostas de cotas no Rio de Janeiro veio do sindicato das escolas privadas. Devido a essa tendência para a privatização das escolas públicas, não acredito numa rápida melhoria delas. A desigualdade social que existe há quatrocentos anos não pode ser resolvida por meio de políticas universalistas. É preciso, portanto, traçar políticas específicas para se encontrar uma solução. A discriminação racial A palavra “social” incomoda-me muito. Quando dizem que a questão do negro é uma questão social, o que quer dizer “social”? As relações de gênero são uma questão social; a discriminação contra o portador de deficiência é uma questão social; a discriminação contra o negro é uma questão social. Ora, o social tem nome e endereço. Não podemos diluir, retirar o nome, a religião e o sexo e aplicar uma solução química. O problema social tem de ser atacado especificamente. A discriminação racial precisa ser urgentemente enfrentada. Nós, negros, também temos problemas de alienação de nossa personalidade. Muitas vezes trabalhamos o problema na ponta do iceberg que é visível. Mas a base desse iceberg deixa de ser trabalhada. Estou aqui, como disse, há 28 anos. Vou a restaurantes utilizados pela classe média e a centros de alimentação nos shoppings. Encontro famílias brancas comendo (homem, mulher e filhos), mas dificilmente estão ali famílias negras. Há uma classe média negra, mas que se autodiscrimina e que é também discriminada. Desafio vocês a me dizerem que encontraram quatro famílias negras em cinco restaurantes de classe média em São Paulo. Vejamos o meu caso: em meu segundo casamento (que é interracial) percebia aquelas “olhadas” – mulher branca, filhos negros do primeiro casamento e filhos mestiços do segundo. Ninguém me expulsava desses lugares, mas eu via as “olhadas”...

ESTUDOS AVANÇADOS – A USP está completando setenta anos e gostaria que o sr. falasse sobre as principais linhas de pesquisa sobre gênero e raça na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Kabengele Munanga – Até onde eu saiba não há uma linha de pesquisa sobre gênero e raça. Há um núcleo de estudo da mulher, dirigido pela professora Eva Blay. De vez em quando ela convida alguma jovem pesquisadora negra. Talvez exista uma explicação histórica para isso, porque normalmente quem estuda esse tema são as mulheres. Mas, não temos professoras negras de sociologia ou de antropologia na Universidade de São Paulo. Entrei nela em 1980, como professor, e nunca mais houve um outro professor negro no Departamento. Lembro-me do dia em que Florestan Fernandes recebeu o título de professor emérito e eu estava na fila para cumprimentá-lo. Eu não sabia que ele me conhecia. Por isso assustei-me quando ele me disse que estava muito contente com a minha presença naquela solenidade. Pois fora informado de que ali estava um negro que nem era brasileiro. Um antropólogo em dois mundos

ESTUDOS AVANÇADOS – O sr. poderia descrever um pouco sua trajetória até chegar no Brasil?

Kabengele Munanga – Nasci no antigo Zaire, que hoje se chama República Democrática do Congo, numa aldeia no centro do país. Estudei num colégio interno de jesuítas e fiz graduação em Antropologia. Aliás, fui o primeiro antropólogo formado naquela universidade e o único aluno que teve aulas com professores franceses, belgas e americanos convidados, pois não havia ainda professores africanos na Universidade quando eu entrei Lá, nós acabávamos a graduação com um tipo de dissertação que se chamava Mémoire. O sistema belga dava o direito de se entrar diretamente no doutorado. Em razão disso, comecei o doutorado em Louvain, na Bélgica, em 1969. Dois anos depois, voltei para pesquisas de campo. Mas houve complicações políticas. Cortaram a bolsa e não pude fazer mais nada. Por coincidência, encontrei no Congo, em 1973, o professor Fernando Mourão, que ali estava realizando palestras sobre as contribuições africanas para a cultura brasileira. Conversamos e ele me disse que a USP possuía um projeto de cooperação com as universidades africanas e que nela eu poderia completar o doutorado. Cheguei aqui em 1975 e me inscrevi no doutorado, sob a orientação do professor João Batista Borges Pereira. Como eu estava bastante adiantado, em dois anos defendi minha tese. Trabalhei sobre o processo de mudanças socioeconômicas numa comunidade no sul do Congo. Voltei correndo à militância para colocar meus conhecimentos à disposição de meu país. Mas quando cheguei lá, tive de fugir para o Brasil. Quando houve a independência do meu país, o antigo Zaire (em 30 de junho de 1960), eu estava com dezoito anos. A Faculdade foi criada pela Bélgica, seis anos antes da independência, em conseqüência de pressões internacionais. Fui alfabetizado na minha língua materna, mas no fim do primeiro grau começou o ensino em francês. O resto do curso foi em francês. Isso porque, com mais de duzentas línguas, não era possível escolher uma para ser a língua nacional. Todos os alfabetizados falam francês.

ESTUDOS AVANÇADOS – Alguma dessas línguas africanas é hegemônica?

Kabengele Munanga – O suahili que é uma língua falada em muitos países africanos, em parte do Zaire, Tanzânia, Burundi, Quênia e Uganda.

ESTUDOS AVANÇADOS – Suahili tem alguma coisa a ver com o árabe?

Kabengele Munanga – Cerca de vinte por cento do vocabulário, porque desde a Antigüidade os árabes tiveram muita influência no continente, a partir do oceano Índico, além de terem sido responsáveis pelo tráfico oriental e transaariano (entre os anos de 600-1600). Mas a estrutura da língua é totalmente bantu (africana).

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Omara Portuondo, a intérprete da emoção cubana

Omara Portuondo é dona de voz macia e intensa, que aos seus 75 anos é considerada a melhor artista cubana nesta vertente, tendo sido a protagonista duma das passagens mais comoventes no documentário "Buena Vista Social Club" do realizador alemão Wim Wenders, filme que acabou por celebrizar internacionalmente a música cubana e os seus intépretes.

A sua vida artística começou verdadeiramente por uma ironia do destino, em 1945. Inúmeras vezes, Omara assistia aos ensaios de sua irmã, Haydee, no conceituado cabaret 'Tropicana' em Havana. Por acidente, Portuondo acabaria por preencher o lugar de uma bailarina que, há uns dias da estreia do espectáculo, se despedira sem deixar rasto. Como já sabia o papel de cor, Omara agarrou a oportunidade com garra. Este seria o ponto de viragem na vida de Omara Portuondo iniciando, primeiramente, uma carreira como bailarina com a ajuda do talento de Rolando Espinosa. Aos fins-de-semana actuava no grupo Loquibambla Swing, cantando temas conceituados do jazz americano. Mais tarde, em 1952, formaria um dos mais importantes quartetos femininos na história da música cubana.

Omara primeiro integrou um grupo chamado "Cuarto de Orlando de la Rosa", tendo-se unido depois à banda feminina Anacona. É então em 1952, que passou a fazer parte do quarteto Aida Diestro, onde permaneceu por quinze anos. Durante esse tempo, desenvolveu a sua carreira a solo, trabalhando com vários artistas lendários do mundo do espectáculo, como foi o caso de Nat King Cole e Edith Piaf.

Magia Negra (1959) foi o primeiro álbum a solo de Omara, marcante no "enamoramento" entre os sons quentes de Cuba e o jazz norte-americano, "personificado" nas versões dos temas "Caravana" (de Duke Ellington) e "The Old Black Magic". Mais tarde seguir-se-iam Esta Es Omara Portuondo, 'Palabras', 'Desafios'. Omara chegou, em 1995, a gravar com os The Chieftains por intermédio de Ry Cooder, que a convidaria igualmente para encabeçar um fantástico bolero com Compay Segundo, para o álbum Buena Vista Social Club. Hoje, Omara Portuondo dirige sua própria orquestra em Cuba.

Assista ao vídeo: Maria Bethania e Omara Portuondo

Baianidade em pessoa - Dorival Caymmi comemora 94 anos em família, com bolo e guaraná

Responsável em grande parte pela identidade cultural que a Bahia construiu no país e no exterior desde o final da década de 1930, o cantor e compositor Dorival Caymmi completa 94 anos, hoje, em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, ao lado da mulher, Stella Maris, 86, e dos seus três filhos (Nana, Dori e Danilo), sete netos e cinco bisnetos.

Pode-se falar numa tripla e íntima comemoração: ontem, Nana Caymmi fez 67 anos e hoje Dorival e Stella também celebram 68 anos de casamento (eles se conheceram quando ela se apresentava num programa de calouros da lendária Rádio Nacional). A festa, com bolo e guaraná, acontece no final da tarde, informa por telefone uma bem-humorada e realista Nana.

“A família vai estar toda reunida. Dori (NR: o compositor e arranjador mora em Los Angeles, nos EUA) veio para o aniversário. Todos os filhos, netos e bisnetos estarão juntos. Mamãe vai comer bolos alemães, que não têm açúcar, e os de papai são feitos em casa mesmo. Também mandei fazer um caruru para ele dar uma bicada. Espero não matar o papai (risos)”.

Nana, que entra em estúdio no final de maio para gravar um álbum de inéditas temperado por algumas regravações, mora no Leblon, mas visita os pais todo dia. “Tem aparato de enfermagem, mas fico 24 horas no ar, principalmente por causa da mamãe que é um poço de doenças. Papai tem problemas de velho, ouve pouco, não lê mais e não toca mais, o que é difícil para ele. Felizmente, mantém-se lúcido e é muito paciente”.

Diferentemente do antigo apartamento, a nova morada de Caymmi, na Praça Lido, tem vista para o mar e árvores. “Até achei que ele não ia gostar, porque velho não gosta de mudar. O outro, que fica também em Copacabana, foi cercado por prédios. Papai tem síndrome de maresia. O novo dá pro mar, bate muito sol e ele tá lá contente com a tartaruga que ganhou”.

Um dos precursores da bossa nova e maior baiano vivo, Caymmi pegou um navio em Salvador em 1938, aos 22 anos, rumo ao Rio, onde produziria, via sambas-canções, a parte urbana da sua obra. A Bahia, porém, tão bem cantada por ele em hinos como A lenda do Abaeté, É doce morrer no mar, Saudade de Itapoã e Samba da minha terra, nunca deixou de ser a sua essência.

Na verdade, o mestre da música popular brasileira com suas canções praieiras criou uma sociedade ideal, com pessoas simples e felizes, personagens folclóricos, lugares lindos, clima agradável... Uma Bahia utópica e que, juntamente com a literatura do amigo e cúmplice Jorge Amado (1912-2001), difundiu mundo afora a identidade baiana que conhecemos hoje.

Uma imagem tão deliciosa quanto os doces e as comidas que Caymmi apreciava na infância e adolescência passadas na boa terra. “Graças à família Burgos, sempre tem comida da Bahia para ele aqui, tipo puba e acaçá, que é um bolo de milho enrolado, ainda quente, em folha de bananeira. Eu não vejo isso nem mais aí na Bahia. E não pode faltar farinha”, conta a filha.

Em agosto de 2006, depois de 11 anos sem pisar em Salvador, Caymmi voltou à cidade para receber o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte. “A Bahia que ele carrega no coração é uma Bahia que não existe mais. Agora mesmo, ele ficou triste ao saber que o novo gabarito de Salvador permite a construção de prédios de até 18 andares na orla”, diz Nana.

***

Um arquiteto da canção brasileira

Em Dorival Caymmi, autor de cerca de cem composições, qualidade, e não quantidade, produziu uma obra extremamente singular e que pode ser considerada como um dos pilares da construção da canção brasileira. A sua folclórica fama de preguiçoso deve ser entendida, na verdade, como uma grande virtude, um traço perfeccionista da sua personalidade musical.

Através da batida do seu violão (aparentemente primitiva, mas espontaneamente inspirada nas harmonias de compositores eruditos como Ravel, Debussy, Bach e Mussorgski) e do seu canto confidente, o homem praieiro, a herança africana, os personagens baianos, as mulheres sestrosas e até um sentimento de carioquismo cruzaram os limites culturais e dionisíacos de um Brasil que fazia a transição entre o rural e o urbano.

A música de Caymmi é um grande exemplo de confluência entre o simples e o sofisticado a partir de elementos naturais como o vento, o mar, a morena e a terra. Uma confluência traduzida em canções praieiras, sambas, sambas-canções e toadas tão autorais (ele foi um dos primeiros compositores do país a gravar suas próprias canções), que o transformaram no melhor intérprete de si mesmo. A Bahia lhe deve muito. (HB)

terça-feira, 22 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Akon - hip-hop americano de origem senegalesa

Aliaune Damala Bouga Time Puru Nacka Lu Lu Lu Badara Akon Thiam, mais conhecido como Akon, (Dakar, Senegal, 30 de Abril de 1973) é um cantor de R&B e hip-hop americano de origem senegalesa, também é compositor, rapper e produtor musical. Akon chegou à fama em 2004 na sequência do lançamento de seu single "Locked Up" a partir de seu álbum de estréia Trouble. Seu segundo álbum, Konvicted, ganhou uma nomeação para o Grammy Award junto com o single "Smack That". Ele é o fundador da Konvict Muzik e Kon Live Distribution. Ele é conhecido por fazer ganchos com vários artistas e tem mais de 130 aparições como convidado e 21 canções na Billboard Hot 100 para o seu crédito. Ele é o único artista a conseguir a façanha de ficar ao mesmo tempo em primeiro e em segundo lugares simultaneamente na carta Billboard Hot 100 duas vezes, com "Don't Matter" e "The Sweet Escape". Akon é filho do percussionista de jazz, Mor Thiam e fala inglês, francês e wolof.

Nome e idade
Akon muitas vezes abreviado, Aliaune Thiam,embora outras fontes tenham dito que seu nome é Alioune Badara Thiam,e a About.com diz que seu nome é mais longo, contendo, "Lu Lu Lu", não foi autonomamente verificada. Sua idade foi descoberta recentemente. No entanto, desde então, a AP relatou que ele nasceu em 1973 e tem 35 anos. Algumas instituições da mídia relatou que ele nasceu em 1981. Em setembro de 2007, em uma entrevista para uma Revista Israelita, Akon revelou que a idade dele era entre 25 ou 26 anos.

Antecedentes
Ele é filho do percussionista senegalês Mor Thiam. Ele é um muçulmano nascido em St. Louis, Missouri , mas cresceu no Senegal até que aos 7 anos, dividiu o tempo entre Senegal e Estados Unidos até que ele foi aos 15 e, em seguida permanentemente transferido para Jersey City, Nova Jersey. Ele gravou sua primeira canção, "Operations of Nature", com quinze anos. Ele foi posteriormente preso por assaltos à mão armada e distribuição de drogas, e usou seu tempo na prisão para trabalhar em sua música. Após a liberação, Akon começou a escrever e gravar faixas em sua home studio. As fitas o levaram a ser contratado pela SRC/Universal, que Akon lançou seu álbum de estréia Trouble, em Junho de 2004. A maioria das canções de Akon começa com o som do clank de uma prisão e um celular com ele á proferir a palavra "Konvict."



quarta-feira, 2 de abril de 2008

Claudia Rizo - Quente

OLHOS DE RIZO – meu mais novo companheiro musical

Pois é! Tive acesso hoje ao já tão bem comentado “Olhos de Rizo”, da negra linda Cláudia Rizo; o álbum é uma pérola rara num ambiente musical que carecia dessa inovação estética. É uma obra ousada: brilhante na proposta, extraordinária no resultado. Trata-se, para mim especialmente, da consolidação de um projeto pessoal, mas de construção coletiva, voluntariamente coletiva; daí porque a beleza plástica que mina de todos os lados do disco; daí porque o sentimento de nostalgia dos velhos vinis: como seria bom tê-la, Claudinha, nos velhos bolachões, única maneira de consumir o romantismo com o alma repleta de alegria.

A faixa um do disco, QUENTE... bom, há uma suspeição no ar, mas devo afirmar que você soube vesti-la com uma beleza cujos próprios compositores jamais imaginaram ser possível; a canção (assim devo chamá-la?) é um belo presente romântico para os ouvidos bem-educados; a roupagem instrumental, a leveza vocal, o encontro de ambos, a sensibilidade de sabê-la uma canção de amor sem dor e recriá-la para este ambiente de contemplação amorosa foi uma bela sacada; foi uma sacada interessantíssima...

Em NOVA ESTAMPA, você, Graco e João Omar me levaram à comoção plena: Villa-Lobos regozijou nos espaços musicais que habita e se reconheceu ali, no piano, no cello, na letra, na voz, no doce perfume que emana de uma canção simples, coisa tão rara e tão necessária: simplicidade e sofisticação, este casamento perfeito legou-me momentos de puro prazer espiritual. Passei a seguir os passos labirintos e me entregar à comoção do amor. Imaginei roteiros para tantos filmes fulminado pela inspiração derivada daquele som.

A auto-biográfica ILHA DE MIM é linda a partir do próprio objetivo: fala-se si ao falar do mundo, das pessoas, das solidões, do desejo de reconstrução de desejos; o blue-breque é, no disco, a interpretação que Claudinha faz do mundo e de si mesmo, acotovelando com sua habitual verve vocabular aqueles cujas vidas se curvam à mesmice, tão funesta. O conceito da letra e da melodia, noturnas por concepção, instigou-me a imaginar o drama para construção desse arranjo, em si mesmo repleto de desejos e de um vocabulário vasto de emoções.

Não precisavam me dizer. Eu saberia em quaisquer circunstâncias: O SAMBA ME MALTRATA é uma evidente produção ricardina. Desnecessário alongar-me em considerações quanto à habilidade deste moço em traçar idéias sobre nosso cotidiano, tão vulnerável, de operário. A metáfora do couro do tamborim, este amor afetuoso e conflituoso entre mulher, malandro e samba – tão à moda buarquina – recebeu uma roupagem que merece aplausos permanentes; fiquei presa a ela horas até desembarcar embasbacado n’UM TOM MEIO ZÉ, esta verdadeira celebração daquele que é, para mim, o nosso instrumento-patrimônio-raiz: o velho pandeiro. Encontrei Ricardo Marques (o nosso velho músico dos saraus) anos atrás descendo a Rua dos Fonsecas ensandecido: acabara de compor esta que, naquele momento, ainda não tinha sequer título. Parou-me ali mesmo para mostrar sua mais nova produção musical: “vamos compor?”. Eu disse: “Não. Está completa e acabada”. Foi um naufrágio emocional involuntário ouvi-la enquanto descia a Bartolomeu de Gusmão na velha companheira bike. Até o céu se transformou e me mostrou a permanência daquilo que tem vida.

PÂO DE QUEIJO E ACARAJÉ é uma letra maldosa numa melodia safada, composta para ser cantada por uma língua vadia. Parafraseando o velho Augusto, o homem por sobre quem caiu a chaga da tristeza do mundo é mais feliz que este de seu relato musical tão sincero, e tão cortante. Seja como for, vou guardá-la para os momentos de malandragem verbal, erguê-la como símbolo de deboche contra o ocaso da intelectualidade; palavras que arranham os velhos chavões e arruínam as almas dos que arrocham e se incomodam com saias curtas.

Estou redondamente enganado ou TENTAÇÃO foi encomenda? Não há quem não diga que as artes ali narradas – as perversas e as amorosas – não sejam a reprodução do modus vivendi desta menina linda, que é, sim, uma verdadeira tentação, no que há de gozo e sofrimento nesta condição. Ricardo sabia do que estava falando: fez algo que assemelha em gênero, número e grau ao rizo: urbana, noturna, metropolitana, expansiva e (in) deletéria. Só uma nota: esse baixo de PP está destrutivo; é um componente que encerra: é um tsunami capaz de suspender o Japão.
Tom Jobim foi revisitado com uma originalidade inigualável em OUTRA METADE, que queima e arde meus tímpanos com a beleza plástica e a sentimentalidade latente ali presente. Linda. Extraordinária. Apoteótica e.. simples. Faltou-me oxigênio. Me vi assim, como em Ilha de Mim, só na multidão. Naveguei nas teclas do piano e voltei ao tempo que passávamos as tardes, sós, no velho auditório da UESB, tocando aquele piano que já tinha o seu cheiro, o seu sabor.

DOIS DESTINOS tem uma melodia que parece querer transportar-nos a eras longínquas da existência. Mas, para ser bastante sincero, merecia uma letra melhor. Por isso, paro por aqui. Amei DESLIGUE A LUZ. Ouvi o quanto pude. Você estava inspiradíssima na gravação. Música, poesia e intérprete se fundiram numa musicalidade fascinante. Jazz, blue e forró: foi a mais nova semente da flor no meu presente.

OLHOS DE RIZO, olhos de lince: ali é evidente o dedo inspirador de Luciano PP. É uma viagem musical que transporta a luz do expresso 2222. Rasgar a voz foi uma necessidade numa poesia que grita por um amor? Esi aqui o resultado perfeito de uma união cuja vitalidade reside na sensibilidade e na simplicidade, primas-irmãs da beleza.

INDECISÃO é mais uma canção claudiniana, por excelência. Vislumbrei tantas coisas boas naquele curto espaço de tempo que me vi compelido a lançar-me outras vezes ao mesmo ambiente musical: quando absurdamente exaurido, fugi pra QUIZUMBA. Esta, sim, feita para fechar com chave de ouro o já aurífero CD. Espantosa criação humana, senti-me em verdadeiro estado de reencontro com nossa afro ancestralidade. Curvei-me à beleza por sabê-la fruto de encontros venturosos.