domingo, 3 de fevereiro de 2008
Cesária Évora, a diva dos pés descalços
Também conhecida como «a diva dos pés descalços», que é como se apresenta nos palcos, em solidariedade aos «sem-tecto» e às mulheres e crianças pobres de seu país. A morna, um gênero musical profundo em sentimentos e aparentado ao fado português, cantado em crioulo cabo-verdiano, ela adicionou toques sentimentais com sons acústicos de violão, cavaquinho, violino, acordeão e clarineta. Também várias vezes a ouvimos cantar fado, o qual foi, literalmente conquistado, por esta voz tropical.
O blues cabo-verdiano de Cesária Évora tem como tema a longa e amarga história de isolamento do seu país e do grande comércio de escravos, assim como da saudade e da emigração - o número de cabo-verdianos morando no exterior é maior do que a população total do país.
A voz de Cesária Évora, acompanhada de instrumentos que lhe dão um toque de melancolia, ressalta a emoção, que caracteriza a interpretação. Mesmo platéias que não entendem o idioma, interagem com emoção nas apresentações. Fez vários duetos com Marisa Monte.
Plus Vivant – performance de Lokua Kanza
A suavidade de suas canções somada ao “diabólico” ritmo soukouss, solidificaram a imagem de Lokua Kanza como um músico de múltiplos talentos, cantor, compositor e arranjador preciso. Fundamental para a renovação da música africana, em 1995, foi sucesso absoluto na Europa com a música Shadow Dancer.
Kanza nasceu em Bukavu, província de Kivu, na parte oriental da República Democrática do Congo (ex-Zaire), em 1958. Primogênito de oito filhos de um pai mongo e uma mamãe tutsi, de Ruanda, na adolescência passou a tocar guitarra nas chamadas rumba bands. Após o lançamento de seu primeiro disco Lokua Kanza, em 1993, transformou-se num dos expoentes da música africana no mundo. Dois concertos no Auditorium dês Halles, no centro de Paris, bastaram para transformá-lo num genuíno sucesso. Em 2005, lançou Plus Vivant, cuja tournée mundial chega ao Brasil pela primeira vez.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Eu quero ser o primeiro a salvar Yemanjá
A Festa de Yemanjá é, sem sombra dúvidas, uma das mais vigorosas manifestações populares de devoção. É um cortejo cuja beleza transcende o aspecto material e avança para uma atmosfera para-além do surreal. Ali, se reúnem mais que homens e mulheres... trata-se de uma coletivo de desejos comuns, de uma união de esperas desesperadas, de uma comunhão que suprime de casa um a própria condição de humanidade, para remetê-los, também,a condição de seres sobrenaturais.
Somente quem vivencia todos os aspectos da Festa, não apenas sua consumação em mar aberto, mas os preparos todos, as alegorias, as dores que se desdobram em atos de devoção cega, os mudos silêncios de contrição, as alegrias multiplicadas nos risos de satisfação plena.. somente quem enxerga além do humano poderá estabeçecer um juízo do real significado da festa.
A cor de Yemanjá – É costume indaar-se sobre a condição racial de Yemanjá. Ora, santa de cultura eminentemente afro assume feições européias num Estado majoritariamente afro. A transformação é resultado das investidas dos portugueses contra os negros africanos e seus cultos. Proibidos de cultuar seus próprios deuses, inteligentemente criaram um modelo de devoção que é hoje sinônimo de Bahia: o sicretismo religioso. Enquanto devotavam orações aos deuses negros fingiam terem se adaptado à religião cristã.
Nesse sincretismo, Yemanjá é associada a uma Divindade Católica, Nossa Senhora da Conceição. Desta forma, evitavam castigos e mantinham o culto aos seus deuses: oxossi, ogum, iemanjá, etc. Assim a imagem da deusa iemanjá (ritual africano). Na realidade, a Yemanjá do Candomblé é negra.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Ministra assume erro no uso do cartão corporativo e entrega o cargo
Depois das denúncias de gastos irregulares com o cartão corporativo do governo, a ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, entregou hoje a carta de demissão ao presidente Lula. A situação da ministra à frente do cargo estava insustentável, principalmente depois que foi descoberta uma compra no valor de R$ 461,16 em um freeshop.Durante entrevista coletiva concedida em Brasília, logo após a entrega da carta no Palácio do Planalto, a ministra disse que assume o erro administrativo, mas que não se arrepende porque foi orientada a usar o cartão por funcionários da Secretaria Especial. "Esse erro não foi cometido exclusivamente por mim. Dois servidores me passaram a orientação sobre o uso do cartão", afirmou Matilde Ribeiro, que também informou a exoneração dos dois funcionários.
A compra no freeshop, considerada "um engano" pela ministra, foi feita no dia 10 de outubro do ano passado. Matilde Ribeiro disse que foi notificada em dezembro sobre o gasto e que a devolução do dinheiro se deu em janeiro. "Se eu tivesse sido alertada antes, teria corrigido o erro. Diante de um erro administrativo, qualquer pessoa tem que responder pelo ato. Erro é erro e aconteceu comigo", afirmou.
Sobre a conversa com o presidente Lula, Matilde Ribeiro disse que o diálogo foi "maduro" e que cabe a ele escolher o seu substituto. Ela disse que está à disposição do governo para as "tratativas necessárias". A ministra responde a uma investigação da Controladoria-Geral da União. De acordo com a CGU, as despesas com o cartão corporativo chegaram a R$ 171 mil no ano passado, sendo que R$ 110 mil foram gastos com o aluguel de carros e R$ 5 mil em restaurantes. A ministra justificou que os gastos ocorreram porque "fora de Brasília, a Secretaria Especial não tem nenhuma estrutura".
Questionada sobre o aluguel de um carro no valor de R$ 2.624,57, pagos com o cartão em 8 de novembro, a ministra confirmou que a locação foi feita no dia 31 de outubro, véspera de Finados. A devolução do carro ocorreu no dia 5 de novembro. Nesse período, segundo o site da Secretaria Especial, a ministra teve compromissos oficiais no interior de São Paulo apenas nos dias 31 de outubro e 5 de novembro. Entre primeiro e quatro de novembro, não há registro de compromissos oficiais. Mas, durante a entrevista, Matilde Ribeiro alegou que permaneceu em São Paulo dos dias 1 a 4/11 para atividades de trabalho, "não-públicas".
Ameaça sobre o Planalto : auditoria do TCU leva investigação sobre cartões corporativo ao gabinete do presidente e pode provocar CPI
A nova ameaça que ronda o Palácio do Planalto tem a forma de retângulos de plástico e possui uma tarja magnética. São os cartões de crédito chamados de cartões corporativos. A Revista ISTOÉ teve acesso com exclusividade a uma ampla auditoria que o Tribunal de Contas da União (TCU) fez nos 42 cartões corporativos da Presidência da República. Eles servem para cobrir gastos e, principalmente, sacar na boca do caixa dinheiro vivo destinado a custear as despesas do gabinete presidencial, incluindo aquelas realizadas pelo casal Marisa e Lula da Silva e seu staff. A auditoria revelou que, a exemplo do que fizeram os ministros Orlando Silva (Esportes), Matilde Ribeiro (Igualdade Racial) e Altenir Gregolin (Aqüicultura e Pesca), os assessores palacianos também estão usando os cartões de forma fraudulenta. "Foram comprovadas fraudes" na utilização dos cartões, certificou o TCU, depois de três anos de investigação. O relatório final do Tribunal de Contas poderá levar para dentro do gabinete de Lula uma série de denúncias que nos últimos dias têm ficado restritas a ministros de pouca expressão.
Depois de três anos de investigação, o TCU detectou irregularidades como notas frias e superfaturamentoÉ com base nesses documentos que o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), um dos mais atuantes na CPI dos Correios, pretende conseguir as assinaturas necessárias - 171 na Câmara e 27 no Senado - para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito a fim de investigar os gastos com os cartões corporativos. "É necessário apurar a utilização indevida e ilegal dos cartões e punir os responsáveis antes que novas irregularidades apareçam. Os números mostram que estão gastando cada vez mais e não apenas nos Ministérios, mas também no Palácio do Planalto", disse o deputado depois de analisar uma série de documentos. Entre as fraudes detectadas na investigação do TCU estão o pagamento de diárias a servidores que não foram indicados pelo Planalto como integrantes de comitivas em viagens oficiais, o pagamento de diárias, muitas vezes superfaturadas, em quantidade superior ao período de estadia efetiva e a inexistência das empresas nos endereços consignados nas notais fiscais utilizadas para atestar o gasto, ou seja, a nota fiscal fria. Há casos ainda de emissão de notas fiscais "calçadas", aquelas que registram valores diferentes nas várias vias de mesmo número.
Quase a totalidade dessas irregularidades, que se repetiram ao longo dos seis anos de governo Lula, foi identificada em viagem presidencial, realizada em 2 de maio de 2003, às cidades de Ribeirão Preto e Sertãozinho (SP). Nessa viagem, foram pagas 22 diárias para pessoas que não constavam na lista de membros da comitiva fornecida pela Secretaria de Administração da Presidência, a um custo total de R$ 3 mil. Também foi pago um número de diárias superior ao período da estadia de seis servidores do Palácio do Planalto. Um desses funcionários, que o TCU identifica apenas como "AT", passou apenas dois dias hospedado em hotel em Ribeirão Preto. Mas o cartão de crédito corporativo pagou o dobro: quatro diárias. O servidor da Presidência identificado como "SJ" também hospedou-se por dois dias, mas passou no cartão cinco. Na ida a Ribeirão dos servidores do Palácio do Planalto, também ficou caracterizado o superfaturamento, segundo os auditores do TCU. O total da despesa da comitiva presidencial com hospedagem no hotel foi orçado em R$ 23,8 mil. O problema, frisaram os auditores, é que o "valor pago pela Secretaria de Administração da Presidência em maio de 2003 superou em R$ 13,6 mil o valor de mercado de hospedagem no mesmo hotel em setembro de 2006". Ou seja, três anos depois. No total, a viagem ao município paulista consumiu R$ 18,1 mil apenas em "despesas irregulares", atesta o TCU. No caso de pagamento de despesas com cartão corporativo, durante a estada em Ribeirão e Sertãozinho, foram identificados indícios de irregularidades fiscais com notas emitidas pelas empresas FR Comércio e Serviços, Nova Era Comércio, Memory House, Comércio Importação e Exportação e Trovata Design Editorial Ltda.
O funcionário designado para custear, com cartão de crédito corporativo, as despesas da viagem às cidades paulistas foi Josafá Fernandes de Araújo. Alçado ao cargo de agente administrativo no governo Lula, Josafá começou a trabalhar no Palácio como datilógrafo até chegar às áreas de licitações e compras durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele é apenas um dos 42 servidores do Palácio do Planalto encarregados de suprir todas as necessidades do pre- B R A S I L sidente, de sua família e dos ministros palacianos. São eles os ordenadores de despesas oficiais chamados de ecônomos. Precisam trabalhar com agilidade e compram sem licitação. Muitos chegaram ao Planalto com o presidente, como Roberto Suarez. Outros estão no Planalto há mais de uma década, como Josafá e Anderson Ferreira. As primeiras informações sobre o uso abusivo e indiscriminado dos cartões de crédito corporativos pelo governo foram reveladas por ISTOÉ Dinheiro em reportagem de capa em agosto de 2005. Desde então, as suspeitas de utilização ilegal desse mecanismo sempre foram apontadas pela oposição como a prova inequívoca da diluição da fronteira entre o público e o privado pelo governo petista. O assunto pegou fogo nos últimos dias quando foi noticiado que a ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, gastou R$ 171,5 mil em viagens em 2007, todas pagas com o cartão corporativo.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Luiz Gonzaga ao vivo – volta pra curtir
Que Luiz Gonzaga foi genial, isso todo mundo já sabe. Ele tinha a voz forte, as composições imortais, a sanfona característica e um talento nato para incorporar o caboclo nordestino e contar causos e anedotas. Doze anos depois de sua morte, constata-se que ele continua imbatível no gênero que ajudou a fixar no imaginário coletivo do brasileiro: o baião e suas variações. É o que prova o CD inédito Volta Pra Curtir, retirado de um show no Teatro Tereza Rachel, no Rio, em 1972, quando Caetano e Gil voltaram do exílio e queriam mostrar à juventude intelectual da Zona Sul carioca a importância do Rei do Baião. Produzido por Jorge Salomão (com roteiro dele em parceria com José Carlos Capinam), o show que agora virou CD apenas frisa a genialidade do intérprete e compositor, com direito a uma banda regional de primeira, que contou com o então jovem Dominguinhos no acordeom, que acabava de ser rebatizado (deixara há pouco o apelido de Neném).O falatório desfiado por Gonzagão ao longo do disco pode até incomodar a quem só queira dançar ao som de suas músicas, mas não poderia ter ficado de fora. Seria uma heresia, afinal são em seus discursos que ele revela sua graça, sua ingenuidade e seu carisma inigualáveis. O repertório traz seus maiores clássicos - todos, atemporais - como Asa Branca, Boiadeiro, Lorota Boa, Assum Preto, Respeita Januário, No Meu Pé de Serra, Estrada de Canindé, Juazeiro, Derramaro o Gai, Qui Nem Jiló e tantas outras. Entre as menos conhecidas, destacam-se as brejeiras e melancólicas Ana Rosa (Humberto Teixeira) e Hora do Adeus (Onildo Almeida/ Lula Queiroga) e duas homenagens ao Rio de Janeiro: Adeus, Rio (Zé Dantas/ Luiz Gonzaga) e Aquilo Bom (Garotas do Leblon) (Luiz Gonzaga/ Severino Ramos). A nova geração do forró pé-de-serra tem que acender uma vela por noite pra São Luiz Gonzaga. Reverência é o mínimo que se pode ter a um dos dez nomes mais importantes da MPB de todos os tempos.
Faixas
1 Boiadeiro
(Klecius Caldas - Armando Cavalcante)
• Cigarro de paia (Armando cavalcante, Klecius Caldas)
2 Moda da mula preta
(Raul Torres)
• Lorota boa (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)
3 Siri jogando bola
(Luiz Gonzaga - Zé Dantas)
• Macapá (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)
4 Qui nem giló
(Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
• Oiá eu aqui de novo (Antonio Barros)
5 Asa branca
(Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
• A volta da asa branca (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)
6 Assum preto
(Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
• Ana Rosa (Humberto Teixeira)
7 Hora do adeus
(Luiz Queiroga - Onildo Ameida)
8 Estrada de Canindé
(Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
• Respeita Januário (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)
9 Numa sala de reboco
(José Marcolino - Luiz Gonzaga)
• O cheiro da Carolina (Amorim Roxo, Zé Gonzaga)
• O xote das meninas (Luiz Gonzaga, Zé Dantas)
10 Adeus, Rio
(Luiz Gonzaga - Zé Dantas)
• Aquilo bom (Garotas do Leblon) (Luiz Gonzaga, Severino Ramos)
11 No meu pé de serra
(Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
• Baião (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)
12 Pau de arara
(Guio de Moraes - Luiz Gonzaga)
• Juazeiro (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)
13 Derramaro o gai
(Luiz Gonzaga - Zé Dantas)
• Imbalança (Luiz Gonzaga, Zé Dantas)
14 A feira de Caruaru
(Onildo Ameida)
15 Olha a pisada
(Luiz Gonzaga - Zé Dantas)
• Boiadeiro (Armando Cavalcante, Klecius Caldas)
Fonte: http://cliquemusic.uol.com.br/
Texto: Rodrigo Faour
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
O Paulinho da Viola de Meu Tempo é Hoje
Você escuta um estalo. Algo quebrou dentro do peito. Na tela grande, um close na boca gigantesca. A voz é conhecida, a música ainda mais. Marisa Monte entoa "Carinhoso", de Pixinguinha. Sim, é aquela, "meu coração/não sei por que...". É batida, já tocou milhares de vezes, mas não dá para evitar o nó na garganta e a taquicardia. A câmera só mostra a boca de Marisa durante quase toda a canção. Os olhos marejam. A voz de Marisa e o violão de Paulinho da Viola. Só.
E isso acontece lá pelo meio do filme. O coração já tinha ameaçado deixar o peito algumas vezes, mas você não está preparado. Nunca está. Meu Tempo é Hoje, documentário sobre a carreira e o cotidiano de Paulinho da Viola. É a intimidade de um astro tímido, as idiossincrasias de um gênio. É um dos mais belos filmes brasileiros já vistos e certamente o melhor filme de música produzido no Brasil.
Dirigido magistralmente por Izabel Jaguaribe – com roteiro e entrevistas de Zuenir Ventura – Meu Tempo é Hoje é poesia a cada polegada da película. Revela manias, joga sinuca, constrói alguma coisa em sua marcenaria, compra um livro raro. Coisas simples, prosaicas, mas que se transformam em poesia nas mãos de um homem que só sabe fazer bonito.
Paulinho atravessa a rua e entra em uma livraria. Lá, contente, recebe do livreiro o encomendado: o título do livro, "Saudade Brasileira". Paulinho se queixa: ele não sente saudade. Saudade e os efeitos do tempo são assuntos recorrentes no filme – assim como na obra musical de seu protagonista.
As teorias de Paulinho reinventam o tempo. Ele não sente saudades porque não vive no passado, mas sim o passado vive nele. "Meu tempo é hoje, vivo o agora", insiste Paulinho o tempo todo. Antes de tudo, é uma ode ao momento presente, à capacidade e à vontade que se deve ter em aprender a moldar, utilizar, viver o dia que se apresenta. Mas como seu chorinho, o filme de Paulinho não é melancólico. Passeia pela tristeza, pela alegria. É o mesmo homem que compôs "Sinal Fechado" e "Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida".
A leveza e a suave presença de Paulinho nos levam a um passeio pelo Rio, por histórias do samba, por telas maravilhosas de nossa música. Desse modo, transitamos da Barra da Tijuca ao bairro de Oswaldo Cruz. Passamos, de uma sessão refinada entre Marisa Monte e Raphael Rabello, para uma tarde rasgada, em Xerém, com Zeca Pagodinho, passando por uma peixada com samba com a Velha Guarda da Portela.
Os momentos, inclusive, que Paulinho passa com a Velha Guarda da Portela estão entre os mais emocionantes. Gênios da história da música popular brasileira, como Monarco, Argemiro do Patrocínio, Jair do Cavaquinho, entre outros, prestam reverência a Paulinho. Ele chega como um líder, como o escolhido. Mesmo sendo muito mais jovem, Paulinho é tratado como mestre entre os mestres. Quando cantam juntos, é de arrepiar. Monarco, inclusive, tem algumas das tiradas mais divertidas do filme, como quando explica que o samba afastou o amor da sua vida ("trabalhava na feira, depois ia beber e tocar, chegava em casa todos os dias depois das dez. Ela não aguentou") e da falta que faz a mulher no batuque ("samba sem mulher não tem graça. Vira só um bando de negão cantando").
Passam ainda pela tela, Sérgio Cabral, Marina Lima, Elton Medeiros, entre outros. Elton Medeiros faz milagres com uma caixinha de fósforo. Toca muito mais do que muitas bandas completas juntas. Meu Tempo é Hoje também relembra, em imagens preciosas, Pixinguinha, Cartola, Noel Rosa e Jacob do Bandolim.
A notória timidez de Paulinho é pouco notada. À vontade, ele nos apresenta a seus amigos de sinuca, a sua família. Fala de seus carros antigos que, ele mesmo, há de reformar. A pequena marcenaria é o xodó. A intimidade é tanta, que em alguns momentos você esquece que está no cinema e chega a se sentir na sala de estar de Paulinho. Você precisa se conter para não levantar a voz e fazer algum pergunta pra ele. É como se ele estivesse na sua frente. E está. Um exemplo vivo disso acontece quando, no aniversário de Paulinho, mulher e filhos estão sentados na sala, revelando manias esquisitas do homem. Como a vontade inesgotável de consertar tudo que encontra pela frente. É o gênio com jeito de homem comum.
A direção primorosa de Izabel comove. Ela capta as emoções instantâneas, os planos mais profundos. Mostra as cores do samba, as cores do Rio de Janeiro. O azul da Portela, o terno branco em silenciosa contraposição. Não há espaços vazios no filme.
"Só no cinema", como diz Zeca Pagodinho durante um samba na sua casa, em Xerém. Só no cinema. Cinema. Pelas mãos geniais de Paulinho da Viola, pela suavidade de seu ser, pela música espetacular, pela câmera de Izabel, Meu Tempo é Hoje é cinema, como não se vê há tempos. É cinema de verdade. Te faz sentir saudades, mesmo que Paulinho da Viola não aprove isso.
O melhor filme de música já feito em terras brasileiras.
Fonte: Laboratório Pop/ texto: Alexandre Petillo
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
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