quinta-feira, 29 de maio de 2008

Nina Simone: música e política


A tendência natural do homem de classificar seres e coisas sempre existiu. É bem mais simples lidar com a idéia de agrupamento, quando os rótulos determinam perfis e condutas. O problema é quando algo foge do previsto. Ou quando é múltiplo, ou seja, inclassificável. Assim é Nina Simone, no mínimo difícil de se definir. Você deve ter ouvido dizer que seu estilo é jazz. Sim, mas também é soul, blues, gospel, folk, pop e tantas outras variações que só mesmo uma artista como ela poderia desenvolver. Não se trata apenas de mais uma bela voz – belíssima, por sinal. É toda uma conduta e um posicionamento diante da vida que a tornam uma mulher tão especial.

Se hoje a situação para a comunidade negra norte-americana não é das mais fáceis, imagine no início do século vinte. Nina Simone, que veio ao mundo como Eunice Kathleen Waymon, nasceu em 1933, período em que a questão racial ainda não era discutida abertamente, só sentida. Portanto, a segregação era ostensiva e os negros não possuíam voz ativa, apenas sentiam o peso da opressão. Imagine o impacto causado por uma garota negra e pobre fazendo parte da conceituada e conservadora Juilliard School of Music, de Nova York. Em plenos anos 50 Nina tornou-se uma das primeiras mulheres negras a estudar piano na instituição. Foi apenas uma das barreira a serem vencidas.

A carreira da musicista estaria praticamente definida, com o talento nato e um início promissor. Eu disse estaria, porque o destino de Nina previa outros caminhos. Além de trabalhar como acompanhante, conseguiu outro emprego como cantora num bar em Atlantic City. Era o momento de Eunice Waymon dar lugar a Nina Simone, em homenagem a atriz francesa Simone Signoret. Ela nem imaginava o que estava por vir.

O sucesso na noite rendeu a gravação de um álbum no final dos anos 50. Uma canção em especial tornou-se hit, “I Loves You, Porgy”, da ópera "Porgy and Bess", de George Gershwin. Ficou de cara no vigésimo lugar das paradas, um dos poucos da sua carreira. Os anos 60 foram tempos férteis para o nosso alvo. Contratada pela gravadora Phillips, gravou de tudo um pouco, de canções francesas a israelenses, ao jazz de Duke Ellington. Deu seu toque em hits como "Don't Let Me Be Misunderstood” e "I Put a Spell on You", que por sinal, influenciou os Beatles no vocal de Michelle. Após algumas mudanças de gravadora, já na década de 70, Nina se separa do seu marido e empresário e resolve dar uma guinada geral.

Cansada da peleja do preconceito racial e com o show business, começa uma vida meio cigana. Mesmo com problemas financeiros, mudou-se para Barbados e depois para Libéria, na África, Suíça, França e Inglaterra. Continuou produzindo e compondo, porém sem que os holofotes a alcançassem. Graças a um comercial de perfume Channel, na década de 80, Nina praticamente ressurge, com a canção "My Baby Just Cares for Me", hit instantâneo. Daí em diante, seu talento voltou a ser reconhecido e gravou com Deus e todo mundo. Dividiu palcos e estúdios como Pete Townsend, ex- The Who, Miriam Makeba, Maria Bethânia, veio 6 vezes ao Brasil, fez trilha para cinema e muito mais. Virou estrela em 2003 aos 70 anos de idade, de causas naturais, em sua casa no sul da França.

O ativismo político esteve presente em todos os trabalhos de Nina Simone. Sua luta pelos direitos civis dos negros foi intensa a ponto de faze-la deixar a terra natal, os Estados Unidos, por discordar da situação. Uma das canções mais marcantes nesse sentido foi Mississippi Goddam. A letra dura fala do não menos leve episódio do atentado à bomba em uma igreja batista no Alabama, causando a morte de 4 meninas negras. Era época do terror da Ku Klux Klan. Sobre a morte do líder Martin Luther King, escreveu “Why? The King of Love is Dead” ou “Por que o rei do amor está morto” e vários outros temas. Sua vida foi retratada na biografia I Put A Spell On You e em breve ganhará as telas de cinema. A escolha da atriz principal parece ter sido acertada, com cantora Mary J. Blige. Além de ser uma artista acima de qualquer suspeita, tem outras semelhanças com Nina Simone, como fato de ser também empresariada pelo marido e de defender os direitos civis.

*DOSSIÊ NINA SIMONE
Produção: Cássia Magalhães
Apresentação: Michelle Bruck

3 comentários:

Anônimo disse...

Ás vezes, eu me encontro distante do mundo, não por ignorância minha mas, por desconhece-lo e quando me encontro neste planeta descubro que ainda há muito para encontrar-me. Teu blog e Nina Simone que aprendi a amá-la neste dias férteis de descobertas, assim como passei a amar Miriam Makeba, confesso que encontro minha africanidade, minha essência africana espalhada pelos continentes pelo estupro civilizatório que sofremos e fico mais triste quando me encontro descubro que pessoas como a NIna viraram estrelas. Creio que é tempo luta por nosso lugar nesta mundo restituindo no lugar devido nosso herois e mártires como simbolo de resistência e amor pelo seu povo negro. Gostaria de elencar eles e elas aqui, mas tenha certeza que vivem em minha memória e no meu coração.
João Pedro Fernandes dos Santos
Coordenador Da AFROLEAL.
Alegrete-RS

Milson Júnior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Milson Júnior disse...

Foda teu blog einh.

da uma olhada no meu aê

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